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Título: Nosso entrevistado do mês é Fabrício Viana
Veículo: Plataforma G
Categoria: Portal
Data de publicação: Outubro/2006
Link da publicação original:
http://www.plataformag.com.br
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Nosso entrevistado do mês é Fabrício Viana
1- A internet hoje está sempre lançando alguma novidade e para o público GLBT não é diferente. Você mesmo criou a Campanha GLBT, o Armário X e depois a TVTudo.com. Você acredita que ainda há espaço para novos projetos? Você não acha que as fórmulas estão desgastadas?
Sim, formulas - velhas ou novas - existem muitas para a Internet e para este público. O problema são os financiamentos, isto é, a sustentação de cada projeto. Hoje sabemos, por exemplo, que muitas ONG`s homossexuais não tem um centavo de investimento na luta pelos nossos direitos. E não só estas organizações, eu ja vi muitas empresas, sites, portais e diversos empreendimentos fecharem as portas. Muitos por enfrentarem preconceitos mercadológicos. Por exemplo, em uma entrevista com André Fischer, responsável pelo Mix Brasil, ele disse algo nas gravações que eu já estava começando a perceber: grandes empresas, as multinacionais que estão no Brasil, não anunciam, patrocinam ou investem neste público. Mas só aqui. Pois lá fora sim. E isso é péssimo. Tanto que o pensamento de quem quer criar algo para este público e conhece esta realidade é: para que criar projetos que não irão, pelo menos, se auto-sustentar? Um programa de TV em um canal aberto? Uma rádio? As possibilidades são muitas. Mas, pagar os custos com o próprio bolso? Isso eu, e muitos amigos que tem portais na Internet ja fazem. Pois nós, felizmente, ainda acreditamos em algo que, embora ajude muita gente com informações, não é suficiente. Precisamos de mais apoio, mais gente, mais projetos, mais livros, peças temáticas e tantas outras coisas. Mas a grana para tudo isso não existe. Para um programa de TV funcionar, precisa de grandes anunciantes e os grandes não querem relacionar seus produtos com homossexuais. Então, não temos muitas alternativas. Apenas tentativas. Claro que as coisas estão mudando, devagar, mas estão.
2- No seu livro você aborda questões de pessoas que estão “no armário”.Como foi sua experiência vivendo "no armário"?
A minha experiência dramática (e é um grande drama humano) não é muito diferente da maioria, porém, uma característica bastante elogiada no meu livro é que eu consegui narrar experiências bastante relevantes e ainda complementei com minhas observações e análises baseadas na psicologia. Resumindo, eu não apenas falo de si, mas mostro todo o caminho que fiz para me descobrir, me aceitar e viver plenamente minha homossexualidade (e que não foi nada fácil - nunca é). E como não me dei por satisfeito, ainda inclui diversos capítulos sobre o processo de entrada e saida do armário, passando por psicologia, história, casos reais, homofobia, preconceito, machismo e, principalmente, religião. É um livro que deve ser lido por todos os homossexuais, assumidos ou não, com a finalidade de se libertar da neurose, homofobia internalizada, negativismo homossexual e outras dinâmicas psíquicas que temos e que não percebemos (nos impedindo de viver plenamente). Se o livro não fosse meu, mas de outro autor e com o mesmo conteúdo, tenham a certeza que eu recomendaria para muitas pessoas. Felizmente, é isso o que esta acontecendo. Muita gente já leu e está recomendando. Ele é mesmo muito bom. E não é porque é meu. Tem muita coisa lá que as pessoas precisam saber.
3- Hoje é possível notar um grande número de adolescentes que participam das paradas GLBT, você acha que o crescimento do movimento homossexual tem a ver com essa descoberta cada vez mais cedo das pessoas com relação a sua sexualidade?
Eu vejo por outra forma. Hoje temos uma coisa que os adolescentes do passado não tinham: a internet. Esse maravilhoso canal de informação permite a nova geração buscar informações ou mesmo imagens pornográficas (porque não?) relacionadas ao seu desejo "proibido". Quando eu me descobri, não tínhamos isso e todos os livros científicos condenavam a homossexuliadade. Hoje não, temos a Internet, matérias especializadas, paradas gays sendo realizadas em todo o mundo e por ai vai indo. Os jovens, que sentem atração por pessoas do mesmo sexo, entendem mais facilmente que não tem nada de errado com tudo isso. E passam a se assumir mais facilmente. Claro que ainda é uma grande barra para muitos esta fase, de se assumir e se aceitar, mas hoje é bem mais fácil. Sem sombra de dúvidas. Porém, uma observação importante: é mais facil para quem tem acesso a Internet. No mundo real, pra quem mora em cidade do interior, por exemplo, parece que as coisas continuam na mesma. Infelizmente.
4- Na sua opinião, quais são as barreiras que os jovens, os que mais sofrem quando passam por um momento de confusão com relação a sua homossexualidade, enfrentam e acabam esbarrando impedindo até mesmo sua auto-aceitação?
Não existe um problema genérico. Cada problema tem ligação com a personalidade de cada um. Por exemplo, o problema maior de um pode ser a família, outro, pode ser o machismo em sua cabeça impondo normas (se você for gay, você é automaticamente submisso e fraco) e por ai vai indo. Como a homossexulidade passou por um processo condenativo de quase 100 anos pela ciência e de mais de 2000 anos religioso (e continua sendo condenada) é muito dificil um jovem perceber que tem os desejos homossexuais e assumir isso de um dia para o outro. Não. Não é nada fácil. Mas existe um caminho, um caminho que é melhor do que se esconder, viver de forma heterossexual só para manter as aparências ou ainda ignorar estes desejos. Que é aceitá-los e, com muito estudo e leitura, entender que o grande errado é a sociedade e não a homossexuliadade.
5- Em um dos seus artigos, você comenta a questão dos pais mostrarem para seus filhos questões referente a homossexualidade. Você acredita que há muitos pais, mesmo os mais jovens que tem receio de ter um homossexual na sua família?
Sim. O medo de um pai de ter um filho homossexual é um medo dele mesmo com relaçào a homossexualidade projetada na criança. Dificilmente eles entendem que uma criança será ou não homossexual independente de sua criação e educação. Eu costumo usar meu exemplo, eu cresci vendo casais heterossexuais se beijando na TV, nas ruas, no shopping, no meu bairro, e mesmo assim, não tive vontade de ser heterossexual. A formação da sexualidade é feita com base em diversos fatores que fogem ao controle de outra pessoa no processo. O que eu percebo é que uma familia cujos os pais tem uma sexualidade bem resolvida e sadia - e muitas poucas famílias são assim - a orientação sexual do filho é a última, da lista de preocupaçoes, que eles querem ter acesso. O que importa é se a criança crescerá saudável, forte e se ela será feliz com outra pessoa, independente de ser homem ou mulher. Fale isso a um homossexual, que seus pais querem apenas a felicidade dele, independente de suas escolhas? Pronto, muitos conflitos seriam sanados só com esta aceitação incondicional.
6- Como você vê a mídia hoje em relação à homossexualidade?
Graças ao movimento homossexual brasileiro, constituido por ONG's e militantes independentes (meu caso), percebo que a TV brasileira deu uma "freada" na difamação homossexual em programas humorísticos na TV. Principalmente depois do episódio do João Kleber, cuja programação e até a emissora Rede TV foi punida devido a difamação contra mulheres, homossexuais e outros. Ferindo assim os direitos humanos. Tive o prazer de participar disso e pela primeira vez na história do Brasil, uma emissora foi punida. Um caso exemplar. Atualmente não vejo tanta TV, mas sei que personagens são inseridos em novelas, casos, debates e tudo o mais. Precisamos tirar a homossexualidade da escuridão onde ela ficou por muito tempo e mostrar a sociedade que não tem nada demais com ela. Seja na TV, jornal, revista ou qualquer outra mídia.
7- Nos EUA é possível encontrar na televisão séries que abordam a homossexualidade como: Will and Grace, Sex and the city, The L World, e são séries de sucesso que duram anos, como Will and Grace que ficou dez anos no ar. Na sua opinião, por que aqui no Brasil isso não funciona? Por que séries e até abordagens feitas nas novelas ainda são tabus em nossa sociedade?
Nos EUA temos um exemplo bárbaro de luta pelos direitos dos homossexuais na mídia chamada GLAAD. Trata-se de uma ONG que monitora a mídia há mais de 10 anos e que, com isso, fez melhorar muito a produção de programas de TV em todo o terrítório americano. Eles dão palestra para produtores de TV, fazem workshops para jornalistas sobre como tratar o homossexual, fazem uma premiação anual com os artistas que mais contribuiram para a visibildiade positiva dos homossexuais, enfim, tentamos criar algo parecido aqui no Brasil há alguns anos atras (sim, eu estava neste projeto) mas não vingou. Quem sabe um dia? Mas, é por estes e outros que a qualidade e a inclusão de homossexuais na midia americana e em outros paises vem dando certo cada vez mais. Eu costumo dizer que, quando a homossexualidade sai da escuridão (que é a ignorância das pessoas) ela perde sua força negativa. Pois todos passam a perceber que ela é o que ela sempre foi: apenas uma orientação sexual.
8- O ministério da educação colocou em sua pesquisa do ENEM questões referente a homossexualidade. Questões como: se o adolescente já sofreu preconceito ou como ele agiria se tivesse um homossexual na família. Qual sua opinião sobre o tratamento à causa homossexual por parte do governo hoje?
Eu sempre achei tudo uma palhaçada só. Me desculpem os amigos petistas, mas eu votei na Marta Suplicy para prefeita de São Paulo pensando que, por ela ser a mais simpatizante da causa, faria algo por nós e nada. Votei no Lula para presidente e nada de concreto e ou de grande representatividade. Parece que antes das eleições, eles assediam o povo homossexual que é tão alienado quanto a própria população. Depois somem. Eu votei no Serra para prefeito e vi ele de perto, na parada gay, coisa de poucos metros, com uma cara absurdamente fechada. Como se estivesse lamentando sua vinda até ali. Ou, como se os homossexuais fossem um monte de "viado maquiado" e ele devesse sair dali assim que terminasse suas obrigações. Posso estar errado e este é meu direito enquanto cidadão. Mas até hoje não vi nenhum prefeito ir a parada gay com uma expressão tão ruim no rosto. É óbvio que meu voto não será para ele. Mas para quem mais? Agora sim temos um problema grave. O governo não faz nada porque, por tras dele existem políticos. E grande parte são políticos religiosos, que condenam a homossexualidade. Quando não, são políticos que tem medo de fazer algo de positivo para os gays pois isso machariam a imagem do partido e eles perderiam votos (que valem tanto quanto dinheiro). Então, resumindo, danem-se os homossexuais. E nós aqui, como todos os cidadãos, pagando as mesmas obrigações com uma grande diferença: não tendo os mesmos direitos. É como se o governo dissesse, vocês não existem. Não merecem os direitos que deveriam ser iguais, a todas as pessoas.
9- As pessoas que convivem com você dizem que você é uma pessoa que não pára. Está sempre criando e inovando. Quais são seus planos para o futuro? Conte-nos sobre seus próximos projetos.
Projeto pessoal é trabalhar muito. Atualmente estou batalhando um segundo emprego e o Alex também. Queremos comprar nosso apartamento, nosso carro e nossas coisas. Mas isso só vai acontecer com muito esfoço e estamos batalhando para isso. Com relação a militância e ao meu trabalho para a comunidade GLBT, como o primeiro livro foi muito bem aceito (até peça de teatro já querem adaptar) vou seguir escrevendo outros. Tenho mais dois ou três em mente. Neste momento iniciei um sobre a potência orgástica, estou colhendo informações, fazendo pesquisas e me deparando com coisas que não fazia idéia: as pessoas não sabem fazer sexo. Aquele sexo intenso, cujo gozo é uma explosão intensa que proporciona a ambos um relaxamento muscular que dura dias. Tudo é muito mecânico ou, em alguns casos, nem é. Enfim, acredito eu que fará tanto sucesso quanto ao primeiro. Mais ainda por falar de sexo. Porém, para ler o segundo, precisa de ler o primeiro pois, para entender e levar tudo para a parte prática, tem que estar totalmente fora do armário, livre das neuroses, homofobia internalizada e do negativsimo homossexual. Mas meus projetos estão mesmo voltados para a escrita. Escrever muito. Tanto artigos quanto livros.
10- Para terminar, fale-nos sobre você, quem é Fabrício Viana?
Fabrício Viana é um cara como qualquer outro. A diferença é que ele demorou um certo tempo, não tanto quanto outros casos, para descobrir que sua homossexualidade era algo tão natural quanto a própria sexualidade humana. E que, se não fosse por sua busca incansável pela verdade, conhecimento e informação, ele estaria provavelmente vivendo uma vida medíocre escondendo seus desejos homossexuais de si e dos outros. Claro que ele não faz apologias: seja gay e será feliz!!! Porém, ele diz, se você acha que é gay, tem tesão por pessoas do mesmo sexo, então, qual é o problema? Viva seus desejos, e de forma assumida, que a sua qualidade de vida psíquica será muito melhor. Este é Fabrício Viana. Alguém que descobriu que a sociedade condena violentamente a homossexualidade sem ter qualquer conhecimento ou estudo científico sobre isso. Mas que no fundo, sabe que a própria sociedade esta errada e que precisa rever diversos conceitos. Parece coisa do outro mundo, mas não é. Como digo no meu livro, a sexualidade (ou a vida em si) não é complicada. Nós é que sempre complicamos. E meu trabalho é descomplicar. Sempre. |