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PREFÁCIO

"Escritor, formado em Psicologia e com carreira no ramo de marketing e negócios. Gay, assumido e bem resolvido. Casado, de papel passado, com outro homem.

Este é Fabrício Viana.

O surgimento deste livro, na verdade, já era esperado. Afinal, ele nunca parou quieto. Em três anos, lançou três grandes projetos: Em 2002, a Campanha GLBT, que já espalhou por mais de 2.200 sites de empresas, sites pessoais, blogs e fotologs, banners de protesto contra o preconceito aos GLBT´s; em 2003, o site Armário X, um projeto sem fins lucrativos com o objetivo de esclarecer questões sobre a sexualidade humana e a homossexualidade, que já contém mais de 800 páginas; e, em 2004, a TVTudo.com, o primeiro programa independente em banda larga criado para atender o público GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) de forma multimídia, no ar 24 horas por dia, 7 dias por semana, exibindo artigos e vídeos que revelam a vida e os pensamentos de personalidades do meio gay (incluindo este que vos escreve)."

CONSIDERAÇÕES

"A forma com que escrevi é muito pessoal e foi baseada em minha vida, pensamentos e estudos bastante significativos desenvolvidos ao longo dos anos. Por isso “Vida e Pensamento do Desejo Proibido”. Pois ele mostra a minha visão de homem e de mundo que não é, necessariamente, a visão de todos. Me dando bastante liberdade quanto a isso.

Por questões éticas, alguns casos citados durante o livro não possuem nomes e algumas referências pessoais foram trocadas propositalmente. Mantendo-se assim o sigilo e a integridade de todos.

Sobre o conteúdo, infelizmente não pude abordar todos os assuntos de que gostaria (como a história da homossexualidade no Oriente ou mesmo ter mantido meu foco sobre as meninas homossexuais). Uma das minhas maiores dificuldades em sua criação foi sintetizá-lo em poucas páginas. Tive a preocupação de não confundir o leitor com sua complexidade, principalmente aqueles que pela primeira vez tenham contato com este assunto. "

MINHA DESCOBERTA

"A partir disso, começou minha “piração”. A amizade com ele continuou, mas não tínhamos mais aquele contato noturno. Como até então não conversávamos sobre o assunto, resolvi saber – por necessidade de entender a rejeição – o que ele pensava a respeito. Então, pela primeira vez, conversamos sobre o ocorrido.

Ele me disse, não uma, mas várias vezes, que deveríamos tentar conquistar meninas. O que fazíamos era uma fase conforme constava no livro. E que iria passar. Que ele nunca teve experiência com garotas e gostaria de experimentar.

A idéia de que a homossexualidade era doença, naquela época e em livros, era tão grande que ele chegou – em um dia em que estávamos no metrô voltando do trabalho – a dizer que eu deveria procurar um psicólogo e me tratar.
A impressão que tinha, e que confirmo hoje, é a de que eu segui meus desejos até o final. Investi neles. Ele não, os rejeitou e ainda projetou sua rejeição em mim. Inteiramente. Como se a "doença" citada no livro fosse exclusivamente minha."

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"Mas não sou homossexual.

Por conta dessa turbulência, senti a necessidade de me enquadrar em uma classificação de comportamentos e padrões sexuais impostos pelos estudos e sociedade. Não só pela minha idade e adolescência, na qual minha identidade estava sendo formada, mas também na formação da minha própria sexualidade. Precisava enquadrar-me em uma das classificações que conhecia: bissexual, homossexual ou heterossexual.

Eu sabia que gostava só de meninos. Mas não suportava ter que entrar e me classificar na categoria homossexual. A palavra para mim era muito pesada, carregada de negatividade e quase sinônimo de doença. Me senti muito mais confortável e até mesmo imaginava ser mais aceito pelos outros – quando descobrissem – se me rotulassem de bissexual. E, assim, fiz e permaneci por um bom tempo.

Sou bissexual."

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"Paralelamente a minha entrada na Internet, comecei a ler o livro de um jovem – hoje meu amigo – que contava suas experiências homossexuais no exército. Seu nome é Marcelo Bandeira e o livro se chamava Bandeira Camuflada. Eu o vi na TV dando entrevista no “Programa Livre” e com certa dificuldade encontrei seu livro para comprar.

Gostei muito de ler sua história de vida e por meio dos relatos descobri que o "mundo gay" era muito maior do que aquele em que eu freqüentava. Por exemplo, fiquei sabendo sobre os darkroons (quartos escuros dentro de algumas boates onde o sexo é permitido), sobre as “pegações”, nome dado ao sexo em locais públicos e também sobre o Autorama, uma parte do Parque do Ibirapuera em São Paulo, onde as pessoas se encontravam, namoravam ou até mesmo transavam.

Essa parte que não conhecia me surpreendeu muito. Se eu, que freqüentava a noite gay – mesmo sendo uma só boate – estava, assim, surpreso pelos darkroons e pelas pegações que não sabia existir, imagina minha mãe lendo o livro escondido quando eu saía para trabalhar?"

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Quando terminei de me trocar, já saindo do quarto, ela me perguntou: “E você, é gay?”

Sem olhar para ela e continuando a sair do quarto respondi "Sou!". Não sei se falei muito baixo ou se ela não esperava esta resposta e precisava confirmar, só sei que me perguntou de novo: "Meu filho, você é gay?". Novamente só que um pouco mais longe e mais alto, disse "Sou mãe!"

Ela ficou no quarto e eu segui em direção à porta, para sair. Fiquei esperando o novo amigo do lado de fora em frente de casa. Ela veio, chegou perto e me perguntou como era o local que eu estava indo. Se lá todo mundo dançava sem roupa. Indiretamente se lá todo mundo "fazia sexo". Dei risada e disse que não, era uma boate comum, com pista de dança e pessoas conversando e namorando.

O ARMARIO

"Sendo assim, negar os instintos sexuais de alguém é como negar parte dele. Parte que é fundamental ao funcionamento do aparelho psíquico (funcionamento da mente) e que harmoniza toda a sua energia vital quando atinge sua potência orgástica (o gozo pleno).

O problema é que isso nem sempre acontece. Nossa sociedade produz indivíduos neuróticos cada vez mais impossibilitados de exercerem sua sexualidade ou quando exercem é na forma de "orgasminhos" (gozar por gozar) tão ridículos cuja única função é aliviar parcialmente as tensões do dia-a-dia.

E tudo isso é resultado de uma construção histórica bastante repressora com relação ao sexo. Hoje temos esta consciência pois diversos estudos históricos nos mostram que algumas sociedades antigas eram tão liberais – dentro do seu contexto sócio-cultural – com relação ao sexo que promoviam grandes festas carnais. "

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"O pecado sexual.

De lá para cá, a sociedade evoluiu e a sexualidade humana retrocedeu. Em grande parte devido aos hebreus e toda a fundamentação religiosa derivada deles, como o início do cristianismo e a introdução na mente das pessoas do conceito de pecado.

Aliás, o conceito de pecado é tão alienativo (cega as pessoas) que ainda hoje insere e promove, ferozmente, o sentimento de culpa a todo ato sexual condenado pela Igreja, onde o sexo é pregado com fins reprodutivos e o prazer como sendo obra do demônio.

Até mesmo a simples masturbação por garotos, graças a condenação religiosa, cria uma grande sensação de desconforto, após o término de sua prática. Como se aquele ato “impuro” enfraquecesse seu espírito e fosse uma grande aberração perante as leis de Deus. E que cientificamente (hoje) não tem nada a ver. Se masturbar é uma prática natural, humana, boa, gostosa e muito saudável – auxiliando inclusive na prevenção do câncer na próstata, segundo estudos recentes."

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"Neste panorama, se a sexualidade não é conhecida profundamente e de forma correta pela população, imaginem a homossexualidade.

Para piorar a situação, o pouco que escutamos sobre ela, na maioria das vezes, é de forma negativa, pejorativa, deturpada e estereotipada. Nunca o que de real ela é: apenas uma expressão da sexualidade humana.

Assim fica fácil entender a enorme distância que nós, nossos pais, vizinhos, colegas de trabalho e amigos têm da homossexualidade.

E também a nossa facilidade (com as informações erradas que possuímos) de enquadrá-la como uma anomalia ou doença, já que no dia-a-dia só vemos uma forma de relacionamento, constituído por um homem e uma mulher. E tudo o que foge a isso é considerado anormal."

A HISTÓRIA DA CONDENAÇÃO

"Nas tribos primitivas da Oceania, um dos estudos mais antigos já realizados pelo homem (cerca de 35.000 anos atrás) deixa claro a existência do relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo, onde os mais velhos iniciavam os mais jovens na vida adulta.

Entre os Marind, uma das tribos localizadas na Melanésia, os meninos, quando atingiam certa idade, eram separados da mãe e retirados da casa das mulheres para dormir com o pai na casa dos homens. Quando ele entrava na puberdade, era entregue a um tio materno para que este pudesse iniciá-lo como homem. E esta iniciação envolvia o sexo oral e a penetração anal.

Assim como os Kiman e outros povos desta mesma região, os Marind acreditavam que somente com a penetração anal e com o sexo oral o jovem poderia receber a semente (esperma) e assim tornar-se um adulto, tão vigoroso quanto quem o estava iniciando. Esta relação durava de 3 a 4 anos aproximadamente. Após este período, o jovem passava a ser visto como adulto e poderia formar sua família."

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"Condenação religiosa

Como podemos ver, toda a condenação homossexual que temos hoje é derivada de conceitos e preconceitos que vêm sendo impregnados na mente das pessoas, durante séculos. Não é algo atual ou de poucos anos atrás. E sim uma condenação que já faz parte do nosso inconsciente coletivo, aquele inconsciente que é passado de pai para filho, durante centenas de anos, e que já faz parte de uma cultura.

Para desespero dos homossexuais essas crenças tomaram proporções gigantescas. Hoje, temos duas grandes religiões derivadas dos hebreus e que competem entre si, chamadas de catolicismo (comunidade católica) e protestantismo (comunidade evangélica). Juntas, e por terem suas bases cristãs, elas ocupam quase todo o território brasileiro, levando suas crenças e sua condenação homossexual a todos os lugares que possamos imaginar.

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"Nesse sentido é como se a religião precisasse de grandes aliados para reforçar suas crenças. Fazendo com que a ciência provasse (para todos) seus conceitos que, na época, provavelmente já começavam a serem questionados.

E isso originou sérias conseqüências. Graças a esta teoria, livros e artigos médicos foram publicados, para outros médicos e para a população, deixando claro que a prática da masturbação poderia causar, além de epilepsia, cegueira e loucura. E usavam até conceitos mais agressivos. Dizia-se nestes livros que com a prática da masturbação, a perda de 0.028 gramas de esperma equivaleriam a perda de 1.134 gramas de sangue.

Justamente por isso muitos jovens eram obrigados a dormirem com um anel metálico com 4 pregos voltados para dentro, anatomicamente encaixados em seu pênis, para evitar a ereção noturna e a tentação da prática masturbatória. Prevenindo-se, assim, doenças ou até mesmo a morte pelo fato de perderem sangue."

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"Com base nisso e, se ela foi distribuída em 1994, podemos imaginar que levou-se mais ou menos de 2 a 3 anos (ou mais), para que o novo conceito sobre a homossexualidade fosse difundido para toda a comunidade científica (profissionais, cientistas, universidades, professores e universitários), ao redor do mundo. Portanto, estamos falando de uma data aproximada ao ano de 1997.

E esta é uma data muito recente, pois faz parte da nossa vida e da nossa existência. Tudo está acontecendo agora e neste exato momento. A partir de 1997, com base em 2006, só se passaram 8 anos de “libertação” contra 100 de condenação. Somando-se ainda com mais 1000 anos da condenação religiosa.

Ironicamente é muita condenação para pouca libertação.

ENTRANDO NO ARMÁRIO

"Produzindo a baixa auto-estima

Essa junção da homofobia internalizada e do negativismo homossexual acaba gerando uma baixa auto-estima bastante significativa. Significativa pois, embora eu desconheça um estudo científico e amplo sobre isso, sabemos que são raros os casos em que um homossexual cresce em um ambiente, onde a homossexualidade é totalmente aceita, permitida e incentivada.

Essa baixa auto-estima é o que leva, por exemplo, aos muitos questionamentos que venho acompanhando em listas de discussões, na Internet, e-mails, comunidades no Orkut ou mesmo entre conhecidos e amigos quanto à vida homossexual, principalmente em relacionamentos.

E o discurso deles parece não mudar. Sempre reclamam da mesma coisa. Dizem que o “mundo gay” é podre. Que ninguém quer saber de namorar. Ninguém quer algo sério ou quando querem, traem na primeira oportunidade que aparece.

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"Se sou naturalmente pecador e dizem (e eu acredito nisso pois faço parte dela) que meus desejos homossexuais são proibidos e representam um pecado maior que carrego dentro de mim, devo negá-los e viver minha vida de forma “correta”. Vivendo em função das crenças “sagradas” que eu jamais penso ou pensarei em questionar.

E muitos ficam ali para sempre. Estagnados e vivendo sua culpa (e não a sua vida) por serem homossexuais.

Vamos curar!

Nessa fase de remissão dos pecados (que alguns nem cometem, mas se sentem pecadores só por ter esses desejos) é que algumas instituições religiosas se aproveitam para promover a “cura” de todo esse mal.

E não é difícil convencer uma pessoa com esses conflitos, completamente abalada e sofrendo por ser gay, de que o caminho do reino dos céus é a salvação e que ela ficará “curada” e se tornará heterossexual, pai de família, com filhos e feliz.

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"Com base em outras experiências de sua vida, a análise não foi tão complicada.

A subida na montanha representava sua busca interna no contato com o Céu e o divino (Deus) que, simbolicamente, estão lá em cima. Sua subida não era fácil porque, para alcançar Deus, que representava a perfeição, ela também teria que ser perfeita. E não era. Pois quando chegava lá em cima (quase cumprindo seu objetivo) sua maior imperfeição (seu pecado por ser lésbica, suja e não digna) fazia com que ela caísse em direção ao Inferno. Ninguém a derrubava ou empurrava. Ela, com sua auto-condenação interna, caia todas as vezes e acordava.

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"Novamente estamos falando da nossa atualidade e realidade. O conflito que a religião promove é terrivelmente espantoso.

Por estes e outros motivos, precisamos pensar bem quanto às nossas crenças e aquilo que nos é ensinado nessas religiões. Por meio delas é que o conflito é potencializado.

E a escolha de continuar ou não é de cada um.

Isso se chama liberdade religiosa. A liberdade que todo ser humano tem (ou deveria ter) de acreditar ou não naquilo que pensa ser o melhor para si.

Por anulação de sua homossexualidade, alguns preferem continuar dentro delas compactuando com o sofrimento já citado, pois mais cedo ou mais tarde, ela se posicionará rigorosamente contra algo que nos dá tesão, é saudável e muito gostoso."

SAINDO DO ARMÁRIO

"Remando contra a maré

Agora que conhecemos algumas forças que fazem com que os desejos homossexuais fiquem trancados e odiados dentro do armário, temos que fazer um longo caminho inverso, para que eles sejam retirados de lá. Enfrentando nossos medos e encarando todas as pessoas que estão em nossa volta.

Claro, que a decisão e todas as possíveis conseqüências de sair do armário são de responsabilidade única e exclusiva de cada um.

Meu caminho pessoal, e o caminho de muitas pessoas que conheço e que se encontram totalmente fora do armário vivendo bem sua homossexualidade me resta dizer apenas uma coisa: vale a pena, e muito, assumir seus desejos para si e para os outros. Sem exceção. Amigos, colegas de trabalho, vizinhos, família e quem mais participar ou fazer parte dos seus relacionamentos."

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"Expressando a homofobia

Isso também explica a quantidade de comunidades na Internet que incitam a violência e o ódio contra homossexuais. Já li histórias absurdas e eu mesmo fui vítima de muitas discussões entre eles (por ser assumido e ter meus projetos na rede). Tanto que em algumas de suas conversas, e que tive acesso, eles explicam detalhadamente e com uma impunidade incrível – sem medo de serem presos – como matar um homossexual.

Ou melhor dizendo, como matar internamente sua própria homossexualidade. Que é, novamente, seu objeto de fixação. E que se não fosse, nem lá eles estariam.

E homofóbicos não podem ser confundidos com quem simplesmente não concorda ou não aceita a homossexualidade. Todos têm este direito, de concordar ou não. Mas odiar é outra história.

Quando um esquizofrênico no estilo serial-killer mata e esquarteja mulheres, significa que algo interno nele, o arquétipo, a figura ou a representação da mulher no seu inconsciente não está inteira. Dentro de si ela está mal formada e em pedaços. Por isso ele esquarteja mulheres."

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"Perda de energia psíquica

Claro que a formação de homofóbicos talvez seja um dos piores, sociamente falando, resultados dos desejos dentro do armário. Por outro lado, não só ele ou os “tiques nervosos” são resultados desta repressão. Perda de energia psíquica também.

Por exemplo, quando existe uma neurose (um conflito) parte da nossa energia vital fica presa e não “flui”. Criando assim “nós” afetivos de energia parada.

Dependendo da quantidade ou intensidade desses nós, essa energia presa acaba interferindo – e muito – em nossa vida.

Como é o caso vivido por muitos que não são assumidos, mas que vivem escondendo sua homossexualidade. Sempre longe de amigos, familiares e colegas, vivendo uma vida dupla (com suas namoradas, esposas e filhos) e gastando energia não só na vivência parcial e medíocre desses desejos como também na luta constante para escondê-los de todos."

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"Nossa família imperfeita

Quando pensamos em sair do armário, além das barreiras internas que nós criamos, existem diversas outras externas que estão ali nos grupos sociais que convivemos. E o mais importante deles é a nossa família, principalmente por ser o primeiro grupo que temos envolvimento e que aprendemos “quase tudo” sobre o que é certo e errado.

Porém, é importante frisar que o conceito de família perfeita e politicamente correta baseada na moral, tradição e os bons costumes não existe. Para termos idéia, o desenho “Os Simpsons” foi um dos pioneiros na TV onde pela primeira vez foi mostrado (em larga escala e para o mundo inteiro) uma família do jeito que ela é: totalmente imperfeita."

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"Como, por exemplo, o caso bem pertinente da “família autoritária”, aquela em que apenas um dos indivíduos exerce poder sobre todos os outros, controlando-os de uma maneira que não os deixe serem autênticos. Esse indivíduo autoritário não tem consciência alguma de seus comportamentos e acaba elegendo, internamente, um de seus membros (geralmente o mais fraco) como sendo o causador de todo o desequilíbrio familiar (transformando o em “bode-expiatório”, isto é, jogando a culpa toda nele).

Para piorar a situação, este “mais fraco”, muitas vezes, acaba absorvendo esta culpa e se sentindo, realmente, a ovelha negra da família. Como se ele fosse mesmo o doente.

Além da autoritária, outros tipos de famílias também existem nesse livro, o que deixa claro, em todas as suas páginas e outros estudos, que não existe mesmo uma família perfeita. Fazendo com que ela acabe elegendo sempre um bode expiatório dentro ou fora dela para aliviar o conflito e sua própria imperfeição. Em poucas palavras, ela sempre arruma um jeito de jogar a culpa de ser imperfeita em alguém (dentro ou fora dela).

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"Casos mais crônicos do “falso eu”

Este pacto selado com as expectativas da família é bastante prejudicial. Não só no desperdício de energia psíquica, que já citei, mas também na própria formação da personalidade.

Partindo-se para um resultado mais crônico, a vivência de um “falso eu” 24 horas por dia, sendo quem os outros gostariam que nós fôssemos, pode gerar indivíduos profundamente depressivos ou até mesmo esquizofrênicos (loucos). Simplesmente por estarem negando e sempre, suas reais aspirações.

Sem contar que este acordo também é ruim para a família, que negando a autenticidade deste membro acaba fazendo com que ele a busque fora do ambiente familiar. Como é o caso de muitos jovens que se desligam da família (se revoltando contra ela) buscando sua identidade na identificação com outros iguais (outros jovens na mesma condição). Pois dentro dela isso não é possível.

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"Problema de visibilidade

Essa omissão do homossexual, mesmo em plenas atividades sexuais, é ruim não apenas para ele (pois ainda tem ligação com o desperdício de energia) quanto para a sociedade e todos os outros gays.

Afinal, ele não se mostra. Ele não existe enquanto homossexual.

Dessa forma a sociedade só conhece homossexuais afeminados (homens) ou masculinizadas (mulheres). Pois são estes que mais aparecem na rua. E eles não se mostram porque querem, mas porque faz parte de sua personalidade, não conseguindo esconder suas “afetações”.

Tanto que eles são praticamente arrancados do armário, enfrentando tudo e todos, mostrando para a sociedade quem realmente são.

E, como a sociedade esta mais acostumada a apontar este grupo de homossexuais, imaginam que todos sejam desta maneira. "

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"Nas primeiras semanas em que trabalhei em uma empresa, por exemplo, um rapaz próximo a mim, mas que não me conhecia, ao ver um homossexual afeminado de longe se levantou de sua mesa e disse em voz alta: “Caramba, aqui só entra viado?”

Na mesma hora e na mesma pose de machão que ele fazia retruquei. Por quê? Você tem alguma coisa contra viado? Ele: “Não, não, porque você é?”. Sou, e aí, tem algum problema?

Neste momento todos, já tinham parado de trabalhar e, tensos, prestavam atenção em nossa conversa. Ele, para amenizar, disse que, como eu usava aliança de casamento na mão esquerda, pensou que eu fosse casado com uma mulher. E pediu desculpas. Eu expliquei que não, era casado, mas com homem.

Parece que por este meu enfrentamento, e por quebrar sua necessidade masculina de se reafirmar como macho, esse cara se tornou um dos meus melhores amigos ali dentro. E outros que ouviram a conversa também. E tenho amizade com eles até hoje."

POTENCIALIZANDO A HOMOFOBIA

"A dominação machista

Embora meus estudos sobre a homossexualidade, livros lidos de Psicologia, História, religião, sexualidade e saúde mental ao longo dos anos eu só fui compreender completamente as atitudes preconceituosas com relação aos homossexuais, quando entendi a dinâmica machista no qual estamos inseridos.

Compreender completamente porque, fora a nossa negação, dos outros e da religião contra os desejos homossexuais existe outro componente implícito que potencializa a homofobia. E que caminha paralelo aos outros. Por isso não pude citar antes e tive que manter em um capítulo específico.

Mas é por meio deste outro olhar que passamos a entender que não só os gays são discriminados, mas as mulheres, transexuais e tudo o que venha a representar o feminino (ou o mais fraco) fazem parte desta discriminação."

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"Contra os homossexuais

A negação interna do macho pelo seu feminino também é o que fortalece – bastante – o ódio aos homossexuais.

Por exemplo, um homem que foi criado para ser macho (e penetrar as mulheres que são consideradas “inferiores”) e que passa a ser homossexual (sendo penetrado por outro homem) perde automaticamente sua masculinidade. Deixa de ser macho e será inferiorizado da mesma forma que uma mulher. Não pertencendo mais a classe dominante a quem ele deveria obrigatoriamente pertencer.

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"Contra os homossexuais passivos

Graças ao machismo do homossexual é comum escutarmos relatos, piadas ou histórias inferiorizando aqueles que gostam de ser penetrados, dentro da própria comunidade.

Por trás deste repúdio, esconde-se aquilo que todos gostariam muito de fazer por serem homossexuais (ser penetrado), mas que tem medo ou receio de fazê-lo. Pois como vimos, ser penetrado significa se igualar ao feminino, ser fraco, submisso e perder completamente sua masculinidade.

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"Se identificando com o feminino

Porém – e ainda bem – nem todos os homossexuais são machistas. Alguns até passam a ter uma relação muito boa com sua energia feminina. Passando a exaltá-las nos outros por meio de uma grande identificação.

Exemplos são aqueles que demonstram claramente seu fascínio e admiração por mulheres poderosas. Ou você não conhece um gay que é fã da Madonna, Cher, Britney Spears, Whitney Houston, Jennifer Lopez, Cristina Aguilera e tantas outras?

Tirando estas grandes celebridades, muitos deles possuem suas “melhores amigas”, aquelas de personalidade forte e que são as mais admiradas entre todas.

Não por acaso duas delas, que fazem parte do meu círculo de amigos, foram escolhidas por mim e pelo meu namorado para serem nossas madrinhas de casamento. Uma se chama Solange Araújo, heterossexual, bonita e “poderosa”. Outra é a militante Maitê Schnneider, transexual e também muito bonita e “poderosa”. As duas representam parte do nosso feminino exaltado.

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"Hoje não.

Hoje eu entendo este jogo psicológico machista. Sei que quando um grupo de jovens ou homens se reúnem para inferiorizar o outro, ou mesmo xingam um de seus membros como bicha ou viadinho, fazem isso para se sentirem superiores. Demonstrando o quanto são fracos internamente pela necessidade que têm de fazer isso.

Para mim é bom conhecer esta dinâmica, pois não preciso mais me preocupar em como devo ou não me comportar perante os outros. Nem se eu der a impressão de ser gay. Tanto faz. Pois agora eu sei o quanto eles que me faziam me sentir inferior são tão inferiores quanto um dia eu já fui.

Sim, já fui."

MUDANDO O MUNDO

"Um desses casos, relatados por um senhor com seus 56 anos, é um bom exemplo desses erros. Me disse que, quando mais novo, tinha dúvidas quanto à sua sexualidade e resolveu entrar em uma terapia. A psicóloga falou que os desejos que ele sentia por rapazes era passageiro e natural. Mas que seria apenas uma fase. Ele deveria se casar e ter filhos, esquecendo-se desses desejos. E foi o que ele fez. Se casou com uma mulher, teve 3 filhos e uma vida sexualmente medíocre. Sua esposa e seus filhos sabiam de seu interesse por rapazes. Mas como a terapeuta insistia nesta “tentativa” heterossexual, ele seguiu a risca. Pelo menos até mudar de terapeuta, algo que fez só depois de 20 anos.

E aí as coisas mudaram. O novo terapeuta entendeu suas reais aspirações e ele, feliz por ter finalmente se encontrado, decidiu começar a viver sua homossexualidade plenamente. Separou-se de sua esposa, livrando-a também de um relacionamento que sexualmente nunca foi promissor para ela e passou a viver com outro homem.

Hoje, ele é feliz e só não diz que “perdeu” 20 anos de sua vida, graças ao erro da terapeuta, porque amou e ainda ama a ex-mulher e os filhos. Mas sexualmente está muito melhor vivendo com outro homem."

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"Resumidamente, as possibilidades que movem esta orientação são tão grandes que se eu quisesse poderia pegar um heterossexual, analisar sua infância, seus complexos, desejos e fixações e detalhar, com base em algumas observações, como ele se tornou heterossexual. Mas o que irei encontrar são fragmentos de algo muito mais complexo do que aqueles que estarei narrando. Afinal, é assim que um desejo sexual é criado. E por isso ele também é maleável. Podendo ter meu desejo sexual orientado hoje por alguém do mesmo sexo e futuramente pelo sexo oposto. Ou o contrário, hoje ser heterossexual e amanhã homossexual. Ou ainda os dois, pois na sexualidade humana tudo é possível. Nela estas classificações e “regras” – criadas por nós – não existem."

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"E muitos, além de não ajudarem na militância, acabam fazendo um trabalho reverso, sem perceberem. Como foi o caso de um jovem assumido que, em uma lista de discussão com mais de 2.000 jovens mandou um joguinho muito “bacana” onde você era um caçador e tinha que matar gays numa floresta. O caçador tinha uma espingarda que ao atirar não só matava como estraçalhava homossexuais. Com muito sangue. E se o homossexual pegasse o caçador, mostrava eles fazendo sexo tendo-se o caçador como o passivo (sujeito dominado) na relação. E o jogo terminava, pois você foi “comido” (perdeu sua masculinidade) antes de exterminá–lo.

E ai cabe a pergunta: como pode um homossexual fazer isso? E ainda achar engraçado? Achar interessante ao ponto de repassar para mais de 2.000 jovens gays e lésbicas em uma lista na Internet? Ele não tem consciência de que o jogo tem conteúdo explicitamente homofóbico? É tão difícil perceber isso?"

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"E muitos, além de não ajudarem na militância, acabam fazendo um trabalho reverso, sem perceberem. Como foi o caso de um jovem assumido que, em uma lista de discussão com mais de 2.000 jovens mandou um joguinho muito “bacana” onde você era um caçador e tinha que matar gays numa floresta. O caçador tinha uma espingarda que ao atirar não só matava como estraçalhava homossexuais. Com muito sangue. E se o homossexual pegasse o caçador, mostrava eles fazendo sexo tendo-se o caçador como o passivo (sujeito dominado) na relação. E o jogo terminava, pois você foi “comido” (perdeu sua masculinidade) antes de exterminá–lo.

E ai cabe a pergunta: como pode um homossexual fazer isso? E ainda achar engraçado? Achar interessante ao ponto de repassar para mais de 2.000 jovens gays e lésbicas em uma lista na Internet? Ele não tem consciência de que o jogo tem conteúdo explicitamente homofóbico? É tão difícil perceber isso?"

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"Algo compreensivo do ponto de vista de que tudo é um processo de re-aprendizagem. Por exemplo, eu fiquei constrangido quando beijei um homem dentro de um carro, pela primeira vez. Depois, quando andei de mãos dadas em um shopping. Novamente, quando contei ao presidente de uma empresa onde trabalhava. Em seguida, quando fiquei deitado em um parque abraçado com meu namorado, onde todos olhavam. Fiquei, mas superei. Passou. Não fico mais. Pois o “estar sexualmente resolvido” é algo maior do que imaginamos e que é conquistado mesmo com o tempo, ousadia e audácia em superar nossas próprias barreiras. Que novamente, nós é quem criamos em nossa mente.

Então, a partir disso estamos prontos para lutar por nossos direitos (pois temos finalmente uma boa auto-estima) e ajudar outros homossexuais a se encontrarem neste imenso caminho conflitivo que nós passamos.

E a militância, neste sentido, pode ser feita por qualquer pessoa, em qualquer situação, em qualquer lugar e de várias maneiras."



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